Rudesindo Soutelo
Compositor - Composer - Komponist
Rudesindo Soutelo - Retórica
Aforismos

Toda sociedade que resolve uma crise económica cortando no orçamento da cultura e da educação, está avocada à miséria.

O mundo vai mudar quando eu mude.
[ The world will change when I change. ]

A minha liberdade começa onde começa a liberdade dos demais.
[ My freedom begins where the freedom of others begins. ]

A finalidade do palhaço, não é fazer rir. O palhaço utiliza o riso para fazer pensar.
[ The purpose of the clown, do not laugh. The clown uses laughter to make you think. ]

Todo direito que não envolve um dever, constitui um abuso.

Onde há muita mediocridade tudo é teoria.

A dignidade, como o perdão ou a liberdade, ninguém a outorga, conquista-se.

A música é a expressão mais formosa da matemática.

Ama para aprender e apaixona-te para criar.

Amor é aquilo que estamos dispostos a fazer junto de outra pessoa.

A disciplina faz-nos livres, a violência escraviza.

Disciplina com violência é vulgar repressão.

A verdade é tão só uma mentira perfeita.

Sem disciplina não há opinião livre.

Quem não te ama não te precisa.

A disciplina gera coerência e transforma-nos em pessoas livres.

Tudo nos une quando nada nos ata.

Sem disciplina não há pessoas, apenas bestas.

Creio em Deus porque não posso renunciar às minhas obras.

Há um único Deus verdadeiro, o que não existe.

Deus é a criação mais perfeita da humanidade.

Amor é disciplina, disciplina é liberdade.
Poemas

Amor negro
A enviada do céu
Lábios de sabor a mar
No tancar-me els teus ulls
Tu sei della natura il desiato riso
La palabra se hizo carne

--

Amor negro

Poema para uma obra de câmara (Soprano, Clarinete, Violoncelo e Piano) em três andamentos que estou a elaborar e reflecte acerca da transmudada física da amorável transcendência.

Amor negro

I. Palpite

Einstein viria aqui dizer:
não se pode conceber
tempo sem espaço.

Esse achado,
de espaço e tempo,
permitiu o portento
dum ensejo sublimado.

Tempo transmutado.
Espaços colados.
Tempo de mais-valia
por efeito do acaso
em que se viveu esse azo.

Um minuto de espaço
onde uma esquiva razão
gerou a transformação
dum palpite em infindo abraço.

Leis da oculta ciência
numa transmudada física
da transcorrência.


II. Destruição

Einstein viria aqui dizer:
se num gravítico horizonte
espaço em tempo se inverter
a estígia barca de Caronte
a luzente flama há vencer
e, pelo porvir antibionte
ultrapassada, submeter
no avernal remorso da consciência.
Eis do buraco negro a essência.

Arrepios, frémitos e cantos da sereia
excitam as ardentes paixões litizontes
até despassarem gravibundos horizontes
onde espaço e tempo se metamorfoseiam.

Tempo transmutado.
Espaços colados.
Tudo precipitadamente se apaga e descora
quando de amor negro um buraco
qual mantídea louva-a-deus
numa cópula seu amante devora
para acrescer um isófago
e metafísico eu.

Foi de amor inseminado o ventre
imaculado, branco, doce.
Foi o branco ventre inseminado
dum amargo amor negro.

Um minuto de sorriso
onde uma esquiva razão
aliciou a transformação
dum palpite em infinda destruição.

Leis da oculta proficiência
numa transmudada física
da amorável transcendência.


III. Alvorecência

Einstein viria aqui dizer:
tomando de Fausto a reflexão
no principio era a acção
e não do espírito seu misticismo
nem do verbo o conceptualismo.

A energia que nos constrange
ao conhecimento e à sabedoria
também deuses e diabos cria
num palpite negro e arfante
de juras em falso juramento mutante
e em prazer cinzento vira
o fogo dum amor vibrante.

De demos e clerezias
o agnosticismo nos livra
mas também o amor dissipa
e as paixões debilita.

Um minuto de inteireza
onde uma esquiva razão
impingiu a transformação
dum palpite em infinda grandeza.

Chegou a hora!
de reflectir.

Chegou a hora!
de mudar.

Chegou a hora!
de agir.

O buraco de amor negro se esvazia
e dá à luz nossa íntima plenitude
como um acordado alaúde
que nos reconcilia e fecundiza.

Leis da oculta omnisciência
numa transmudada morte
em alvorecência.

© 2006 Rudesindo Soutelo
(Idus de Fevereiro)

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A enviada do céu

A luz da aurora penetrou no seu quarto.
Eludindo o ainda ténue clarear da manhã,
que já incomoda a sua funda sonolência,
entreabriu as pálpebras e removeu-se no leito.

Tivera uma noite muito atarefada,
como um pesadelo denso e difuso,
enmaranhado com vaporosos eflúvios,
prazeres sublimes, fadas.

Nessa letargia meio consciente,
miles de sensações sobrepostas
aglomeram-se na sua mente,
mas com tal sucessiva velocidade
que nem só uma imagem reter consegue.

Preso naquele onírico remoinho,
tentou reconstruir a sua vivência
e achar uma resolução feliz
antes da vigília se tornar vigência.

O tempo parecia ter-se detido
e nem mesmo recordava uma só imagem
com que, a sua história, dar sentido.

Talvez não tinha sonhado nada,
mas sentia esse desassossego dos sonhos
que permanecem presentes quando um acorda.
Contudo, nada lembrava.

No entanto, era já tão vertiginosa a sucessão de imagens
que sua mente só registava sombras de cor mutável.
Surpreendia-se de que alguns autores afirmaram
que os sonhos em branco e negro se manifestavam.

Sempre tivera sonhos cromatizados.
O mundo dos Sons visíveis ou das Cores sonoras,
foram-lhe já, num sonho de juventude, revelados.
Escutara quadros de Mondrian e vira sinfonias de Mozart.
Às vezes pensava que tão só nas mentes criativas
as imagens sonhadas podem ser coloridas.

Porém, continuava sem descobrir que sublimes prazeres
tinha experimentado aquela noite.
Dir-se-ia que tivera uma orgia inesquecível
mas não lembrava de detalhes,
tão só aquela evocação do espírito
que segue a toda exaltação prazenteira.

A luz da manhã, enquanto isso,
prosseguiu o seu lento e inexorável alvorecer.
De novo se removeu no leito
para deter a chegada do acordar matutino.
O esforço obrigou-lhe a uma respiração mais funda
e nela percebeu um leve aroma.
Era algo que tinha sentido em ocasiões muito especiais.
Quiçá tão só uma vez tinha olfactado isso.
Uma única vez na sua vida.
Um aroma inconfundível
mas agora não saberia dizer quando aconteceu.
A sonolência era uma laje no seu cérebro.

Inalou aquele perfume novamente.
Associou isto com algo doce e suave,
como o aroma de mil flores
duma manhã fresca de primavera.

A respiração fazia-se mais profunda
quanto mais intenso era o perfume
que já banhava todos os cantos do seu cérebro
inundando-o de um imenso prazer.

Por fim poderia inventar-se o sonho,
e viu-se num formoso e florido jardim.
Não obstante, quando o olfactou, lá faltava algo.

Algumas abelhas iam de flor em flor
e penetravam-as sem nenhum rubor.
Observando as suas evoluções polinizadoras
compreendeu o segredo de tanta laboriosidade:
conseguir um orgasmo em cada flor.
Achegou-se logo a uma colmeia
e cheirou o mel selvagem
mas, além disso, lá algo faltava.

Sentiu então a carícia de uns cabelos femininos.
A já profunda respiração tinha quase despejada sua mente.
Aquilatou o sonhar e claramente percebeu que
o perfume do prazer sublime emanava dela.

Como uma sacrificada abelha operária
mergulhou-se à procura do seu pólen
até se saciar do misterioso aroma.
Inalou profundamente ... e cheio de gozo,
com um prazenteiro sorriso, abriu os olhos.

- És tu a enviada do céu?
- Eu sou o feitiço dos teus sonhos,
anelo dos mortais, latejo dos anseios.
Eu sou a que adoras em nocturnidade,
espelho de ti mesmo, do teu desejo.
Eu sou o lume que arde em ti,
a luz que espanta as trevas,
a chama purificadora, o calor do inferno
que inflama os teus lábios.

- Acaso sou o sonho dum mito?
- Não, tu só és tu mesmo.
Criador de Céus e Infernos
que à imagem tua e semelhança
fizeste a Deus
para maior glória do teu poder dominador.
Eu sou o teu sonho e mais o teu fascínio.
O anseio carnal que te abre à divindade.
Mel silvestre de púbis de donzela.
O ideal feminino do ocidente.
Mulher de doce sal e neve mole.
Eu sou a Virgem Maria.

© 2000 Rudesindo Soutelo

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Lábios de sabor a mar

I

Muito me praz o receber novas de ti,
ainda mais se venhem tão escassas.

Há sentimentos
que precisam de alimento continuado
para se manter alumiados,
porém, há outros que, uma vez que se prendem,
perduram já per secula seculorum.


II

Muito me praz o receber novas de ti,
ainda mais se venhem da beira do mar,
desse mar plácido e raivoso,
cheio de energias sentimentais
que à noitinha se torna em douradas frescuras.
Essas ondas do mar de Vigo
que o trovador, sublimado de amor,
cantou em lábios da namorada.

Certamente há sentimentos que precisam de muitos miramentos,
porém há estes outros que ainda sem faroleiro alumiam a cotio.
Celebro que estejas activa,
que voltes por aqui, que tenhas desejos de trabalhar,
que tenhas um recanto em frente do mar
e que procures o teu sonho ainda que tudo semelhe baldio.


III

Muito me praz o receber novas de ti,
ainda mais se venhem da beira do meu mar de Vigo
e são de longa estada.
Mais parece que escrevo para uma estadaínha¹,
nunca sei onde a toparei,
mas se te dou em esquecimento de súbito te me mostras,
e do mesmo modo te esvaeces,
deixando de quando em vez algumas palavras escritas
que anunciam aparições longo tempo esperadas.

Celebro que estejas activa,
que procures o teu sonho ainda que tudo semelhe baldio.
E celebro, ainda mais, encontrar-te de novo,
beijar os teus doces lábios,
e sentir a vida nesse teu abraço infindo.


IV

Muito esperei a tua chegada e ainda mais hei-de aguardar.
Te me mostras e já não estás.
Beijo os teus doces lábios e já esmoreceram.
Digo palavras de amor e já ninguém me escuita.
Procuro a tua sombra e já és esvaecida.
Perguntas-me por este forte sentimento
e quando te respondo já és ida.

Semelhas uma borboleta brincadeira
a recolher aromas de flor em flor
para regalar o seu coração,
e ao cabo do dia torna ao seu recanto
até outra metamorfose.
Como uma gaivotinha que foge do mar riçado
e vai terra adentro à procura de outro mar.

Celebro muito que estejas activa,
que voltes por aqui, ainda que seja mui de quando em quando,
que tenhas desejos de trabalhar mui forte,
que tenhas esse recanto em frente do mar vivificador,
que procures o teu sonho e que tudo resplandeça para ti.

Também celebro achar-te aqui,
beijar os teus lábios de sabor a mar,
e te sentir num abraço tão infindo como fugaz.

© Rudesindo Soutelo
Madrid, Janeiro de 1989.

¹ Espírito que encabeça a Santa Companha.

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No tancar-me els teus ulls

No tancar-me els teus ulls,
torna'm l'ànima obscura
on l'abisme madura
bategant nels esculls.

Absència que mesura,
¡sospirs traurà la flor!
Presencia nel dolor,
zefirs que el temps perdura.

Coratge pren l'amor
quan la seva ferida
cenyeix l'ombra florida.
L'estima troba a enyor.

Mes no tot es fissura,
estar amb l'ai al cor
és cercar el bravor.
Somrís de la natura,

no tancar-me els teus ulls.

© Rudesindo Soutelo, 25-XI-95.

---Início

Tu sei, della natura, il desiato riso.

          «Ti dirò come sia dolce il sorriso
         di certe cose che l´oblío afflisse.
         Che proveresti tu se ti fiorisse
         la terra sotto i piedi, all´improvviso?»
                (Gabriele D´Anunzio)


Sogna, sogna quella infinita tempesta.
Il vento, mio dolce amore, ce lo disse.
Infatti, io sento il pàlpito del cuore che pretesta
parole lontane, dove amor t´ha sorriso

brulicante nel chiarore di festa;
e àrdono al tuo petto eterne risse
che vengono da quell´inmensa foresta
dell´essere profondo. So che mai diviso.

Prendi vaghezza nel calmo suono di questa
música come se, in te, l´anima soffrisse.
Cerco la pace ma, anche alze la testa,
guardarei ancora il tuo dolce viso.

Non ti direi che t´amo, la speranza mi resta.
Sogna, anche se nessuno ti capisse,
non diventi la vita in cerimonia mesta,
tu sei, della natura, il desiato riso.

© Rudesindo Soutelo, 24-09-95

---Início

A los chilenos que, que tantos años después,
hubieran deseado merendarse, salva sea la parte,
de su Excrementísimo General.


La palabra se hizo carne

En el principio era aquello
que nuestra nada no alcanzaba,
un halo vital, un destello,
o tan solo el rumor de una incipiente palabra.

El verbo que evoca formas,
despierta y engarza pasiones,
crea, destruye, transforma
todo un reguero de ilusiones.

Dulcinea, Julieta, Doña Inés,
palabras sonrosadas, apetitosas,
salpimentadas y servidas en aguamiel.
¡Oh! Verbos sublimes de frescos aromas.

Pero la cotidianeidad más dura
se mueve entre hedores de despojos.
Tal vez la palabra se hizo carne cruda,
y, ensangrentada, habitó entre nosotros.

Desgarrada, apaleada, rota
la palabra, torturada,
aplastada bajo la bota
la carne, exhausta, desnudada.

Se nos deglutió el verbo,
en reluciente vajilla de plata,
tan Augusto cerdo.
La carne, pero no la palabra.

© Rudesindo Soutelo, 11-IX-93.

---Início


Artigos

O Bardo na Brêtema


22-VII-2010
(Notas ao Programa do concerto celebrado o dia 24 de Julho de 2010 em Vila Praia de Âncora - Portugal - PGL)
Saraquel - O conhecimento do conhecimento


24-I-2010
(PGL)
A estória duma história musical


8-XI-2009
(PGL)
Ópio para o povo - O som do eterno


28-II-2009
Sentimento oceânico
(Programa de Festas de Tui - PGL)

Quando uma criança aprende uma palavra nova, pega nela e repete-a a torto e a direito durante horas, dias ou mesmo semanas até apreender-lhe a sonoridade e sugar-lhe os significados. Vai juntar a nova palavra com qualquer outra, ainda que não faça sentido; vai dispor e combinar as suas partes dum modo diferente; vai traçar geometrias no seu imaginário; vai estruturar frases e pensamentos; vai arquitectar ideias; vai construir e desconstruir sucessivas histórias para edificar as emoções da sua fantasia. No fim de contas, o que a criança está a fazer com a nova palavra é, simplesmente, formar a sua singular personalidade.

Acontece o mesmo ao pintor que pega numa ideia -pode ser um motivo, uma cor, uma forma, uma paisagem, uma luz, um simples traço geométrico- e durante meses vai explorá-la numa série mais ou menos longa de quadros até esgotar todas as possibilidades expressivas da mesma.

Também o escritor passa meses ou mesmo anos com uma ideia e à volta da qual faz emergir todo um mundo que raramente se esgota numa única obra, pois com novas roupas essa ideia transita por obras sucessivas.

O compositor não é alheio a esse proceder que se revela natural desde a infância e com um simples motivo sonoro -tímbrico, rítmico, melódico ou harmónico, mesmo que seja extramusical- pode criar uma vasta obra em dimensões formais, espaciais ou temporais. Pegar num motivo sonoro e fazer o percurso da criança com a palavra é altamente criativo pois o que na realidade está a fazer quando repete a palavra, em múltiplos contextos diferentes, é induzir as conexões neuronais no seu cérebro para gerar processos mentais.

O cérebro é o suporte físico da mente mas possuir uma massa cinzenta perfeita não garante a inteligência nem a mera existência de pensamentos. É preciso educar o cérebro para que a simples activação de neurónios, a circulação de neurotransmissores ou a coordenação das suas diferentes partes se transforme na faculdade de pensar ou num acto de inteligência. É assim que as crianças forjam a sua individualidade e, se essa educação for permanente, ultrapassando a infância, o pensamento que nasce nesse cérebro também pode levar a criar obras de arte transcendentes, quer dizer, perduráveis e significativas.

Para os moradores das margens de um rio é natural que este seja o seu principal motivo de inspiração ou palavra mágica para comunicarem os neurónios com o mundo. O rio Minho não é excepção e todos os que nos olhamos no seu demorado espelho sentimo-nos parte do mesmo mundo.

No passado ano de 2008 a palavra que eu, como uma criança, repeti a torto e a direito durante meses foi a do pai Minho e assim ficou plasmado em duas partituras que considero essenciais no meu catálogo criativo. Ambas as obras unem, activam e coordenam o cérebro colectivo, regado pelo rio Minho, para desenvolvermos essa consciência minhota. Tui e Monção foram os pontos de partida para traçar a geometria musical que estrutura o discurso sonoro e há símbolos que transitam de uma obra para a outra no espaço e no tempo da palavra Minho. Deu-la-deu -a heroína que libertou Monção do cerco castelhano- e Cabo Fradera -o barco patrulheiro ícone do Minho navegável- compartem esse mesmo imaginário colectivo.

A primeira dessas obras intitula-se "Minho azul, um passeio no Cabo Fradera" para Banda Sinfónica, e está dedicada a José Luís Garcia Amador, Comandante Naval do Minho, por ser pessoa sensível que aprecia a música erudita. Nesta obra o rio é um privilegiado ouvinte de músicas que lhe chegam de uma e outra beira como missangas dum colar sonoro. Um dos pontos culminantes da obra alcança-se na simultaneidade de uma Treboada ou Zé-pereira, segundo a denominação ao Norte ou Sul do Minho, com o Hino da guerra contra o invasor francês, quando galegos e portugueses lutaram pela primeira vez no mesmo lado. (Lembremos que o acontecimento que desencadeia a primeira insurreição declarada contra Napoleão em Portugal ocorre na tarde do dia 6 de Junho de 1808, quando o general Domingos Belestá, no comando das tropas galegas, prende no Porto, por ordem da Junta Revolucionária da Galiza, o general francês Quesnel, que fora nomeado corregedor-mor da cidade por Junot). O clímax final da obra pode, muito bem, definir-se como "hinótico" pois das margens chega alternadamente o som dos seus respectivos Hinos e após um diálogo reintegrador, produz-se o abraço final. A estreia de "Minho azul, um passeio no Cabo Fradera", pela Banda da Escola Naval de Marim, está agendada para 20 de Abril de 2009 em Tui.

O simbolismo sonoro desses dois momentos referidos, com outra roupagem, transita para a segunda obra e anuncia o triunfo no seu último andamento. "Deu-la-deu", uma Suite para Guitarra, foi estreada em Compostela no dia 6 de Outubro de 2008, com motivo da Sessão inaugural da Academia Galega da Língua Portuguesa (AGLP) porque esta Academia surge como uma nova Deu-la-deu que procura o triunfo incruento da estratégia e desde o mais alto da fortaleza da língua a AGLP lança os pães ao inimigo. Talvez ele também desista e finalmente (tirando do repetido fio das palavras de Manuel Murguia -historiador e marido de Rosalia Castro- no discurso dos Jogos Florais de Tui de 1891) possamos abraçarmo-nos na língua que temos em comum com Portugal.

A qualidade do nosso cérebro, segundo recentes investigações de neurocientistas cognitivos, tem muito a ver com as músicas que ouvimos habitualmente pois quanto mais complexa é essa música, mais poderosa será a rede que urde o cérebro. E a experiência criativa do compositor, para gerar processos mentais, é trasladável aos intérpretes e ouvintes atentos. Basta que estes repitam a audição, como a criança repete a palavra, um suficiente número de vezes e assim dar tempo ao cérebro de activar, conectar e coordenar os neurónios. É aí que podem surgir as ideias, o pensamento, a inteligência, e então experimentemos o "sentimento oceânico", que Sigmund Freud definiu em "O Mal Estar na Civilização" como: a sensação de estabelecer um vínculo indissolúvel, de ser um com o mundo exterior, de formar parte de um todo. Isso é o que faz a criança quando pega numa palavra nova. Isso foi o que eu fiz neste artigo seguindo a lógica instintiva da criança.

© 2009 by Rudesindo Soutelo


6-X-2008
(Boletim AGLP nº 1)
Por un Corpus Musicum em liberdade


29-II-2008
Minho azul
(Programa de Festas de Tui - PGL)

Tui e Valença estão unidas por um rio amável e humano, fertilizador de terras e gentes, portador duma língua de cultura que desliza devagar ao encontro do oceano para se espalhar pelos cinco continentes.

Os conjuntos históricos que ficam dentro da Fortaleza de Valença ou no contorno da Catedral fortificada de Tui -aqui já temos pouca muralha porque o progresso especulativo chegou-nos muito antes do que o progresso cultural- são um legado patrimonial que a humanidade não deve ignorar. Mas sempre haverá quem só veja nisso umas pedras por cima de outras a impedir o avanço económico. Quando a cultura falha, a economia também não presta.

A indústria natural destas cidades que se olham no espelho azul do pai Minho é precisamente a cultura que ressumam as suas pedras. Cultura acrescentada através dos séculos pelos ilustres criadores que as habitaram. Este ano as Letras galegas homenageiam outro ilustre tudense, X. M. Álvarez Blázquez, em memória de quem eu compus uma grande obra para órgão que foi estreada na Catedral de Tui, porque a humanidade exige-nos a conservação do seu património mas também que continuemos a acrescentá-lo para o legar às gerações que hão-de vir.

Levamos muitos anos de sucessivas crises económicas e sociais que provocaram uma transformação radical nos sectores produtivos tradicionais. Mas isso aconteceu por toda a Europa e devemos tirar proveito das soluções criativas que experimentaram noutros lugares. Cidades com um tecido industrial próspero, viraram quase que da noite para o dia, em quebra económica e social com elevados índices de desemprego.

Sheffield, no Reino Unido, um dos berços da revolução industrial do século XVIII e até aos anos 80 considerada a capital da indústria metalúrgica, é um dos casos mais frequentemente citados como modelo que conseguiu ultrapassar a profunda crise fabril dos oitenta apostando na cultura e na criatividade, recuperando assim o seu esplendor económico e dando mesmo azo a expressões culturalmente marginais. Hoje é já aceite que todo o investimento em criação cultural traz retorno económico e social, mas é preciso não confundir investimento com subsídio, pois uma cultura subsidiada é por definição uma cultura aleijada, submetida, mutilada e portanto de escassa criatividade e inovação.

Óbidos, 75 km a norte de Lisboa, é outro exemplo de reconversão, neste caso dum pequeno concelho -11.000 habitantes- eminentemente rural, com castelo e muralha. Uma política criativa de investimento cultural atraiu artistas e artesãos para se estabelecerem lá e hoje o turismo cultural gera um fluxo de dois milhões de pessoas por ano. Isso faz com que o sector de serviços represente já 50% da sua economia e absorva a mão-de-obra excedentária da agricultura. Mercado Medieval, Festival de Ópera, Maio Barroco, Festival Internacional do Chocolate, Exposições, Museus e Galerias de Arte, Temporada de Cravo, Lojas de artesanato e um longo conjunto de festas e feiras tradicionais conformam um contínuo programa cultural de projecção internacional que também atrai um crescente turismo de congressos. A Vila de Óbidos pertenceu a Dona Urraca, por doação do rei Afonso II, seu esposo, em 1210. Em 1808 iniciou-se em Óbidos a expulsão das tropas napoleónicas. Em 1973, na sede da Sociedade Musical obidense teve lugar uma reunião do Movimento dos Capitães que levaram à revolução do 25 de Abril.

Valença e Tui juntas, unidas pelo Minho azul, não têm menos história, património ou infra-estrutura. Só é preciso valorizar e transformar em algo vivo, criativo, gerador de novas ideias, enfim, converter o Património que recebemos no motor económico da comarca. Tui e Valença devem convergir numa política de investimento cultural comum para optimizar recursos e aumentar benefícios.

Ora essa! -responderá algum pessimista iluminado partidário da parálise total- está a pedir um aeroporto em Tui.

Entretanto fui dar um passeio pelo Minho azul, elo de união cultural, e tal como na minha infância, apanhei virtualmente o Cabo Fradera, barco patrulheiro ícone do Minho navegável, e devagarinho derivei suave e silenciosamente rio abaixo. De ambos os lados chegavam sons que cuidadosamente fui enfiando no papel pautado, como se fossem missangas dum colar, até as margens confluírem numa percepção "hinótica". O passeio sonoro dura 15 minutos, para Banda Sinfónica, intitula-se "Minho azul - Um passeio no Cabo Fradera" e dedico-o a José Luis García Amador, Comandante Naval do Minho e apreciador de música erudita.

Sei que ninguém é profeta na sua terra e por isso trespasso o Minho azul para me assentar lá onde me acreditem.

© 2008 by Rudesindo Soutelo


6-I-2008
Só os ignorantes
(PGL - Inforosal)

A Lei 5/1984, de 5 de Maio, no seu artigo 4º declara Hino da Galiza a obra de Pascual Veiga com texto de Eduardo Pondal. Em Fevereiro de 1985, Rogélio Groba entrega as versões oficias do Hino que lhe encomendara a Junta. O Decreto 73/1985, de 18 de Abril, estabelece as especificações técnicas da Bandeira e o Escudo, mas o Decreto de especificações técnicas do Hino, com as partituras realizadas por Groba para serem interpretadas nos actos oficiais nunca foi publicado, ainda que a Conselharia da Presidência as divulgou massivamente em gravações e publicações. O centenário do Hino era uma oportunidade histórica para corrigir esse erro ou omissão e reconhecer oficialmente a contribuição do Maestro Groba para a normalização do Hino, mas o desatino político não tem limites.

Não se sabe bem quem é o autor dos disparates ou desvarios que está a dizer o Presidente Tourinho e o seu Governo na questão da partitura do Hino. Pelo que parece, as versões oficiais encomendadas pelo Conselheiro da Presidência José Luis Barreiro Rivas e que durante todo este tempo entregavam em Protocolo da Presidência para os actos oficiais, foram agora consideradas indignas, impróprias ou não afectas ao governo. Com certeza o Sinédrio oficial ou Supremo Conselho da Ignorância Galega achou que os arranjos oficiais do nosso Hino não devem ser assinados por um compositor, mesmo que seja o compositor galego mais importante da história da música como é Rogélio Groba, e decidiram encomendar as versões oficiais a uma "consultora". Que nome mais esquisito para ocultar um badameco pedante e pretensioso disposto a trepar pela batuta acima a fim de ostentar conhecimentos que não possui.

Na Voz de Galicia de 29 de Dezembro de 2007, o Conselheiro da Presidência José Luis Méndez esclarece que se trata de contratar uma versão «bem orquestrada para piano e órgão, que é o que não escreveu Veiga, porque então não existiam orquestras na Galiza». O assessor musical que fez confundir uma orquestra com um piano a estes políticos deve ser um néscio inspirado ou talvez o mesmo ignorante antes assinalado, coisas da melopeia bipartida. Mas a versão para coro, a mais utilizada, vai ser a mesma que escreveu Veiga? só para homens? Um pouco incorrecta demais parece essa política de calar, silenciar ou apagar as mulheres. O Conselheiro também esclareceu que as diferenças vão ser praticamente inapreciáveis, mas não elucidou se elas eram em relação à versão original de Veiga ou às versões popularizadas por Groba; estas sim, têm melhoras muito apreciáveis. E se não se vão apreciar as diferenças então quer dizer que não se trata duma questão musical senão, tão só, de ignorar os arranjos do Maestro Rogélio Groba, esses que hoje são utilizados por todos e reconhecidos como os que melhor exprimem a melodia de Veiga.

Desde há vários meses um autoproclamado "Colectivo progressista galego" -que pudera estar relacionado com certos personagens influentes na Conselharia socialista de Educação e talvez com algum interesse económico na questão, ainda que também se lhe viu o rabo a influentes na Conselharia nacionalista da Cultura- vem preparando o caminho para esta tolice ou ignorância por meio de foros anónimos na internet que logo ecoa em algum meio institucional pseudo-informativo. Criminalizaram Rogélio Groba por a lei outorgar-lhe direitos sobre o seu trabalho e agora o governo, talvez iluminado pelo populismo demagógico de "todos contra os direitos de autor", quer emendar uma lei de categoria superior, e mesmo uma directiva europeia, para declarar de domínio público um direito inalienável e irrenunciável.

Em todos os países do primeiro mundo, qualquer hino está sujeito às leis de direito de autor, mesmo o Hino europeu que é o final da nona sinfonia de Beethoven está submetido à lei. E a lei diz que todos os actos oficiais estão isentos de pagamento por direitos de autor mas não priva o compositor de nenhuma das suas legítimas prerrogativas exclusivas e ainda impede que o autor possa vender ou transferir os seus direitos de autor a terceiros. Portanto, o texto que figura na web oficial da Conselharia de Cultura publicado a 28 de Dezembro de 2007, onde se diz: "o autor do arranjo musical deverá ceder os seus direitos de reconhecimento da autoria e da integridade da obra", é de uma supina ignorância legal. Ou será que foi a notícia governamental do dia dos inocentes?

As versões oficiais dos hinos são aquelas que uma lei, decreto ou norma estabelece como as únicas que devem ser interpretadas em actos oficiais. Fora disso não existe instrumento com força legal suficiente para obrigar alguém a utilizar uma determinada versão e só se poderia proibir uma versão se esta atentasse contra a dignidade ou integridade da obra. Cada certo tempo é necessário adaptar as versões oficiais às evoluções que experimentam as distintas formações musicais e aí deve intervir um compositor competente e não qualquer badameco. Quando o governo de José Maria Aznar decidiu actualizar as versões oficiais do Hino espanhol, antes negociou com os herdeiros de Bartolomé Pérez Casas para cederem ao estado a exploração do Hino. Pagaram uns setecentos oitenta mil euros por esse contrato e agora o 95% dos rendimentos económicos que gera a utilização do Hino é recebido pelo estado espanhol. Mas no reino dos rumorosos pretendem que as sociedades de gestão dos direitos de autor de todo o mundo apliquem a ignorância galega quando soar o nosso Hino. Que alguém com um pouco de sentidinho esclareça estes políticos sobre o que é inalienável e irrenunciável, e que num estado de direito o Hino também está submetido à Lei.

A 24 de Julho de 2007, o jornal El País publicou que os rendimentos económicos do Hino galego não superaram os 200 Euros no último ano. Esses rendimentos são recebidos por Groba e pela editora Arte Tripharia com a qual Groba contratou a edição. Com esse dinheiro ninguém irá ficar rico mas a editora declara no catálogo e nas suas edições que esses rendimentos são destinados à publicação do "Corpus Musicum Galleciae". Pouco ou nada se pode publicar com tão insuficiente pecúlio, por isso não estranha que depois dos furibundos e cobardes ataques anónimos que recebera em foros da internet à conta do Hino, anunciara que se vai embora. Uma editora de música culta com um extenso catálogo que quis assentar na Galiza e que defende a nossa língua culta em todas as suas edições não deveria ser ignorada pelos políticos; pelo contrário é desprezada, talvez por defender a expressão culta da música e da língua. A editora chegou a ser oferecida gratuitamente a instituições galegas para que a exploração do seu património ficasse aqui, mas cá ninguém se importa pela nossa música culta, ainda menos, se os compositores estiverem vivos.

Um país que não protege os direitos de autor, começando pelo seu Hino, vai exterminando os seus criadores até submeter-se ao colonialismo cultural da globalização. Este é um país que sempre teve uns políticos necrófilos que só se importam pelos criadores quando mortos, para lhes sugarem a honra e se revestirem da sua glória. No dia em que Rogélio Groba falte, veremos uma longa procissão de políticos a lamentar a perda, entre eles os que agora desprezam as suas versões do Hino e andam à procura de um louvaminha que as emende "inapreciavelmente" para assim deixar de fora o Maestro. Lástima de país, mas já Pondal compreendera que os férridos, duros, imbecis e escuros nos iriam acompanhar longo tempo pois "só os ignorantes... não nos entendem, não".

© 2008 by Rudesindo Soutelo


20-XII-2007
Entra no esquema
(Inforosal)

Aqueles que são mais inteligentes do que eu sempre fazem a mesma sugestão, por vezes imperativa mas, como se já fosse um caso perdido, quase sempre paternalista e com um tom de velada ameaça. A mediocridade musical e cultural -politicamente correcta- do país não dá para integrar vozes discordantes; e manter uma opinião própria é ousadia que se paga com a marginalização ou mesmo com a injúria, calúnia e difamação para promover o descrédito social do insubordinado. Entrar no esquema quer dizer que um já não precisa de ter ideias, e se por acaso lhe viesse alguma ao pensamento há-de escondê-la bem para não contrariar aqueles que o sustentam no poder, cargo, emprego, ofício ou função. O esquema remunera a mediocridade e gera um séquito de bonifrates, fantoches, títeres e marionetas; pessoas levianas e sem vontade própria que perpetuam um sistema de subservientes, louvaminhas e bajuladores.

Os Conservatórios públicos galegos têm um nível muito baixo, bastando ver o número de alunos europeus que vêm cá estudar nos nossos centros superiores ou quantos alunos formados aqui fazem carreira nos palcos da Europa sem passar antes por Conservatórios de outros países, nomeadamente França, Inglaterra, Holanda, Áustria, Alemanha, Itália ou mesmo Portugal, para adquirir a competência profissional que aqui não se alcança. Porque as habilidades que entre nós se ensinam apenas dão para aprovar formalmente os exames de oposição aos próprios Conservatórios, num sistema endogámico. Ainda assim, se o candidato não entra no esquema irá ser constantemente reprovado. É conhecido o caso de um acreditado profissional de música que este ano atingiu o limite da idade laboral sendo continuamente reprovado nas oposições de Conservatórios; mesmo que os seus valores e saberes sejam superiores aos dos júris que durante anos o rejeitaram. É um dos casos mais ignominiosos mas não é o único. Estas infâmias músico-pedagógicas estão instigadas por uma política educativa que gera o seu próprio esquema de mediocridades mexendo cordelinhos na sombra para recompensar com postos directivos os mais dóceis e obedientes, privando de iniciativa e mesmo de independência pedagógica os poucos profissionais que, sem entrar no esquema, conseguem aprovar.

Há professores de Conservatório que estão a ser perseguidos por promover ou apoiar uma candidatura para o conselho directivo diferente da oficial, ou seja, que não entra no esquema dos responsáveis políticos da educação musical. Mas como não é "estético" acusá-los de democracia então estão a ser imputados de não utilizar nas memórias pedagógicas o mal chamado "galego normativo". Acontece que no reino da Espanha não existe legislação alguma sobre normativas de escrita portanto não se pode obrigar alguém a escrever com uma determinada ortografia. Tão galego é representar a nossa língua com a grafia do castelhano como com a do português, outra coisa são os fundamentos filológicos e políticos que sustentam tais decisões. Há mesmo sentenças que assim o julgam porque a escrita não é mais do que uma representação da língua e como tal está sujeita a interpretação dos utentes. Assim pois, diante dos inspectores, tiveram de retirar as acusações e pedir desculpas aos professores. Não darei os nomes dos perseguidos para evitar-lhes represálias maiores e porque antes seria mais justo dar os nomes dos que formam o esquema inquisitorial. Mal vai uma Conselharia de Educação que persegue os que escrevem na nossa língua, seja na norma que for, e não se importa pelo nível educativo, neste caso, da música.

Aqueles que são mais inteligentes do que eu sempre estão no carro do poder, seja lá o poder que for e mesmo que a legitimidade o desassista.

Está-se a celebrar um centenário com mais pompa que substância onde tudo brilha com a luz trémula dum amortecido glamour. Pascual Veiga passou meia vida procurando que a Galiza tivesse um hino próprio, e pouco antes de morrer no exílio madrileno enviou para Cuba a composição musical que logo se converteu no símbolo pátrio por excelência. É uma obra notável e singular mas a versão original, para coro masculino segundo o gosto da época, é hoje muito inapropriada. Rogélio Groba, por encomenda da Xunta, fez os arranjos do hino e dignificou mesmo certos aspectos da partitura, mas como não entra no esquema dos celebrantes pois ignorado é. Parece que estão a dar voltas ao redor do nosso hino para o banalizar e ver como amputar a conflituosa segunda parte -"Nação de Breogam"- que também não lhes entra no esquema.

Ligaram-me do IGAEM (Instituto Galego das Artes Cénicas e da Música) para responder a um inquérito sobre a indústria musical galega e já na primeira pergunta percebi que o seu esquema tem pouco que ver com uma indústria musical que explore aqui a nossa muito rica matéria prima e criativa. Promove-se a cultura musical do subdesenvolvimento, pois ignoram que a base da indústria musical são os contratos de edição, e não as fonográficas nem os organizadores de concertos. Sem compositores não há música nem indústria e sem editoras que defendam, explorem e controlem os direitos dos nossos criadores não passamos de um país terceiro-mundista, controlado por multinacionais do entretenimento ou da brincadeira. Confesso a minha ingenuidade quando pretendi assentar na Galiza a editora de música Arte Tripharia com a sua colecção "Corpus Musicum Gallaeciae". Aqui não interessa a música dos nossos criadores originais, e ainda menos se falarmos de música culta ou erudita. Depois das últimas campanhas difamadoras que os que estão no esquema me infligiram desde foros da internet, a editora vai-se embora. E eu, que sempre quis ser de onde nascera, agora sei que cada um é de onde o querem.

Aqueles que são mais inteligentes do que eu repetem sempre a mesma cantilena: -"Entra no esquema!". Mas haverá um esquema que nos livre de tanta mediocridade? E continuaria eu a ser livre se aceitar as prebendas do esquema? A dignidade ninguém a concede, conquista-se.

© 2007 by Rudesindo Soutelo


20-IX-2007
Caturrice conceptual
(Inforosal)

A premissa básica duma obra de arte é a transcendência, sem isso pode não deixar de ser uma obra mas não é arte. O tempo é o melhor crítico pois os divertimentos geracionais mudam e tão só permanece a essência, o pensamento abstracto da sociedade, o legado cultural.

Para transcender é preciso criar algo novo e original, mas na medida justa, nem demais -que desorienta o perceptor por perda de referentes; nem de menos -que aborrece por ser tudo já conhecido. O factor imprevisibilidade que o autor introduz na sua obra é o que determina a quantidade e qualidade das emoções que vai suscitar nos indivíduos que com ela contactam. É evidente que há públicos com níveis distintos de exigência conforme ao grau de formação e experiência, assim como também há autores que criam em função do público para obter um êxito rápido, mas as modas dos grupos sociais são mesmo isso, mudam rapidamente e, o êxito, desvanece-se.

A genialidade de Mozart, o que nos faz sentir a experiência de sermos criadores, consiste no uso adequado de acontecimentos inesperados em cada momento da sua música, gerando uma lógica emocionalmente criativa. Ainda que hoje a música de Mozart nos pareça algo natural, lembremos que a sociedade em que viveu aplaudia as mediocridades sonoras dum compositor intranscendente e intrigante como Salieri, e quando foi enterrado na fossa comum do cemitério de Viena tão só o seu cão estava presente. A nossa sociedade continua a enaltecer medíocres e intrigantes.

Ainda não existe um estudo científico dedicado ao factor imprevisibilidade dos grandes génios criadores, como também não se conhece a utilidade artística dos críticos, musicólogos e teóricos no devir criativo para além duma ilusória alquimia. Isso pois não é ensinado nos Conservatórios nem nas Universidades e por essa razão poucos criadores se criam nas suas aulas. Deixa-se à intuição pessoal essa procura da essência, e ainda se reveste do halo divino da inspiração quando não é mais do que transpiração pelo trabalho intelectual necessário para encontrar o factor adequado de imprevisibilidade, suscitador de emoções e reflexões.

Por trás de qualquer obra há sempre um conceito ou ideia geradora que só é preciso enunciar quando a realização é tão medíocre que a obra em si não funciona e não comunica. Cada perceptor da obra vai extrair o seu próprio conceito e, provavelmente, nenhum coincidirá com a ideia original do autor, porque se isso acontecera e apenas tivesse uma única interpretação então seria uma obra desnecessária, uma mediocridade dum outro Salieri intranscendente, por não contribuir para tornar criativa a mente do perceptor. Uma professora de piano contou-me a surpresa que lhe causou o comentário espontâneo dum aluno de 8 anos, habituado à música culta, que interpretou umas peças infantis em presença do compositor: "Nesta música não se passa nada e eu aborreço-me". De certo o tal autor, Antón García Abril, mesmo sendo muito famoso pela composição de bandas sonoras, na sua música tudo é previsível e intranscendente.

Numa entrevista ao jornal La Voz de Galicia da Corunha, o passado dia 14 de Julho, o cantor brasileiro Carlinhos Brown reconhece "agora a música é uma coisa banal, todo o mundo pode fazer. Não sei se chegou ao final o ciclo da música no mundo ou se o mundo já construiu um repertório, porque as coisas repetem-se todo o tempo". As letras podem ser muito poéticas e até socialmente comprometidas mas as suas músicas, como já disse referindo-me a Gilberto Gil e em geral a quase toda a música ligeira e popular -não assim a música tradicional- são muito simplórias e previsíveis. Nada novo acontece nelas e não porque a fonte dos sons tenha secado, senão porque criar algo original é muito cansativo e, a maioria, só consegue repetir e repetir-se.

Walter Benjamin, no ensaio "A obra de arte na época de sua reprodutibilidade técnica" (1936), explicava como a perda da aura do original e a reprodutibilidade da obra de arte favoreciam a democratização da cultura -politização da estética- mas também a manipulação das massas -estetização da política. A estética do capitalismo líquido ou financeiro, também chamada pós-moderna, impõe um ultra-consumismo a escala global baseado no tráfico massivo de serviços e bens abstractos como a informação e a especulação. Isto reflecte-se na produção artística e obras existem onde a ideia -muitas vezes uma vacuidade- é mais importante do que a realização. Chamam a isso arte conceptual e exprime uma realidade social efémera e intangível que banaliza até a própria mediocridade. Embora não sejam assim designadas, as melhores peças de arte conceptual são os discursos políticos, vazios de tudo conteúdo e portanto só realizáveis no seu próprio conceito desconceitualizado. É um modelo que se esgota a si mesmo na própria ideia como acontece com a famosa obra do compositor usamericano John Cage, 4' 33" (1952), onde o intérprete permanece durante esse tempo imóvel, imutável e em absoluto silêncio para que o público escute o barulho que há nesse silêncio. Quando a ideia é mais importante do que a sua realização, uma vez expressa, não dá azo a interpretações já que o único conceito válido é o do autor, e a obra se desvanece sem suscitar o mais mínimo lampejo de criatividade nos perceptores, causando apenas uma recepcão submissa da mensagem doutrinal, que nos leva ao pensamento único da globalização ainda que muitos desses autores jurem e abjurem que as suas ideias não consumadas pretendem criticar ao fascismo amável -estetização da política- que é a consumação ultra-consumista.

Ignorância, auto-estima e estupidez são os novos sinais de identidade desta sociedade intranscendente que abafa a fantasia, a criatividade e o ser. Ignorância, auto-estima e estupidez são também os elementos que se precisam para gerar "solenes vulgaridades" como as vacas de plástico que dispuseram por toda a cidade de Vigo. A obra de arte conceptual para responder a tanta mediocridade deveria ser uma descomunal bosta de vaca, autêntica, de média consistência e cheiro persistente, na porta do caturra que decidiu tal parvoíce, que resulta ser o parlamentar responsável pela cultura dum determinado partido político.

Temos de nos revoltar contra esta caturrice conceptual e reclamar a diversidade original do imprevisível frente a reaccionária cópia global.

© 2007 by Rudesindo Soutelo


5-VII-2007
A língua do aquém
(A Nossa Terra nº 1.284; Inforosal; MDL)

Há um mundo em cada um de nós que nem sempre é visível. Temos de vassourar a existência para sentirmos o aquém da vida. Há uma essência que nos preenche por cima da desnaturalização do ser.

O MDL (Movimento de Defesa da Língua) convidou-me para uma palestra na Esmorga de Ourense sobre o “Reintegracionismo no mundo da música” junto com Ugia Pedreira, José Luís do Pico Orjais e Isabel Rei, dentro da campanha “Conhece o teu mundo” que estão a desenvolver por toda a Galiza. Mas esclarecer o porquê de eu falar e escrever numa língua universal ou o porquê de eu ter de o fazer noutra de maior ou menor alcance é algo que não compreendo mais do que para além da conjunção geográfica e o contexto onde vi a luz da cultura.

Nasci na Galiza, berço duma língua literária, poética e científica que hoje, graças aos empreendimentos marítimos de Portugal, empregam mais de 200 milhões de pessoas, e até mesmo um rei castelhano, ao que talvez por isso chamam “sábio", serviu-se da nossa língua para compor o maior monumento da música culta ocidental, as Cantigas de Santa Maria. Com antecedentes desse prestígio e importância o que se teria de esclarecer é o porquê da nossa língua não ser a língua franca de toda a Ibéria. Que eu escreva assim como escrevo é pois o natural, mesmo se as minhas primeiras palavras foram balbuciadas e rabiscadas no hemisfério sul, no Rio de Janeiro, onde falam a nossa língua com uma música muito meiga semelhante à da minha avó, que nunca saíra da Galiza.

Quando retornei à minha aldeia, com quatro anos de idade e me levaram à escola, foi traumático e contra natura ver como os alunos que pronunciavam uma palavra na nossa língua recebiam um açoite com um vime amarelo. Evidentemente a música da língua do mestre era seca, ceceante, áspera e alheia às nossas cadências doces. Ele não era galego nem conhecia a nossa língua, mas fora trazido cá como instrumento desgaleguizador do regime fascista para consumar aquela “doma y castración del Reyno de Galizia” ordenada pela Rainha Católica como vingança por ter a nobreza galega defendido a Joana de Castela -Excelente Senhora para os portugueses e Beltraneja para os traidores castelhanos- como legítima herdeira do trono de seu pai Henrique IV de Castela, usurpado pela sua tia Isabel. Contudo aqueles meninos eram teimosos e ao sair pela porta da escola continuávamos a falar a nossa língua. Assim é porque nos fomos tornando analfabetos em dois idiomas, pois na escola escrevíamos uma língua que não falávamos, porém não nos ensinavam a escrever a que falávamos.

Já na adolescência consegui retornar à escrita da minha língua mas não compreendia o porquê de aqui se escrever dum modo diferente. Sabia que Murguia, o primeiro Presidente da Real Academia Galega, dissera em 1891, nos Jogos Florais de Tui, que “nunca pagaremos aos nossos irmãos portugueses que fizeram do nosso galego um idioma nacional” pois para ele “uma e outra língua são totalmente a mesma, nas suas origens, no seu desenvolvimento e nas suas condições". Também sabia que Castelao no Sempre na Galiza dissera que “a nossa língua está viva e floresce em Portugal” e, no prólogo de Cantares Galegos, Rosalia Castro advertira que escrevia “sin gramática nin regras de ningunha clas” por tanto não podia ser um modelo. Mas o inimigo juntara-se a nós para promover uma grafia fonética com base na ortografia do espanhol, a única que conheciam os alfabetizados, e nos contaminaram de vocábulos e pronúncias alheias. Imaginem o andaluz escrito tal como eles falam e com a ortografia, a música e muitas palavras do português, ou vejam o que é o spanglish. De tal modo nos isolaram do tronco comum que já é mais fácil ser compreendido por um madrileno do que por um lisboeta. E aí está o cerne da questão pois tanto Madrid como Lisboa entram em pânico quando lembram que a Galiza e o norte de Portugal têm a mesma cultura. Um exemplo: os sucessivos atrasos na ligação Corunha-Vigo-Porto por TGV/AVE para evitar ser concluído antes das conexões com as respectivas metrópoles estatais, ou mesmo a reduzida velocidade que vão alcançar os comboios, mais própria do século passado, faz parte desse terror infundado à reunificação da Gallaecia.

Muito dinheiro se está a esbanjar para fomentar um separatismo cultural e linguístico artificial, e mesmo os que promovemos a reintegração ao tronco linguístico comum estamos a ser discriminados porque a lei não permite ambas as grafias. Negam-se subsídios ao jornal reintegracionista Novas da Galiza enquanto a imprensa galega escrita em espanhol beneficia de grandes quantidades de dinheiro por publicar anedóticas páginas em galego. Infelizmente há gente que vive de subsídios para publicar livros desnecessários, mas não só há medíocres a invocar uma lei que é desintegradora e nos fecha as portas do mercado natural da Lusofonia -no fim de contas a cabeça é que não lhes dá para mais- pois também há muito reaccionário a impedir o avanço das ideias e da nossa cultura, por isso se opõem à modificação duma lei que só discrimina os que procuram restituir a unidade, tradição e dignidade da língua.

No mundo profissional da música temos uma realidade algo diversa mas há instituições que insistem em nos inserir na cultura castelhana e aí é que somos uma nota discordante. Como o Concelho de Tui que diz pôr a sinalização turística só em castelhano para facilitar a compreensão aos portugueses. Ou o concerto que deu a Banda Municipal da Corunha no passado dia de S. João no Porto, em cujo programa anunciado não figurava nenhum compositor galego. Talvez por estar enquadrado no ciclo Dias de Espanha não tinham claro se isso ia connosco. E assim irmos desartelhando a nossa cultura.

Ser administrativamente espanhóis, politicamente galegos e culturalmente lusófonos é um dos sinais de identidade desta nação mas também uma oportunidade extraordinária para nos desenvolvermos, se é que desistem de nos cortarem a língua. Entretanto ficam convidados à Casa da Música do Porto no dia 12 de Julho próximo, ao Teatro da Cerca de São Bernardo de Coimbra no dia 28 de Julho ou para o dia 1 de Setembro em Caldas do Geres, o 6 de Setembro em Chaves, o dia 8 em Guimerães, o 22 em Bragança e o 29 de Setembro em Compostela para ouvir a minha obra “O corvo da liberdade", a vontade que desafiou Deus, porque a língua é a essência que nos preenche no aquém da vida.

© 2007 by Rudesindo Soutelo


14-VI-2007
Manipuladores de emoções
(A Nossa Terra nº 1274; Inforosal; MDL)

Não há vida onde não há luta. Todo conceito implica um desconceito. Toda acção gera uma reacção.

Uma leitora atenta e extraordinária guitarrista, Isabel Rei, formulou-me a questão da componente emocional no processo criativo. Afirmo eu que o compositor é um manipulador de emoções, um modificador temporal dos estados de ânimo do ouvinte, um iludente evocador de realidades virtuais. Todos experimentamos alguma vez a mudança de ambiente que se produz num espaço em total silêncio ao soar uma música ou mesmo um simples tom. Os nossos sentidos abrem-se a uma outra percepção, como duma onda envolvente que subtilmente nos desloca para um novo cenário. Também temos experimentado como a mesma música nos emociona de modo diferente em circunstâncias distintas ou mesmo que algum intérprete nos deixa indiferentes com músicas que outros intérpretes nos fazem vibrar.

Parece óbvio que não pode transmitir emoções quem não se emociona mas como e quem cria essas emoções? O compositor teria de ser o primeiro a reagir ao estímulo da sua própria obra durante a criação, nessa luta por dar à vida a visão mágica do mundo, segundo a tese de Jean-Paul Sartre. A emotividade é um complemento da função racional do indivíduo e mesmo um elemento essencial do carácter segundo o filósofo e psicólogo francês René Le Senne, mas as emoções são de breve estadia ainda que perdure a sua lembrança na lagoa da memória.

Existe uma industria das emoções muito potente a provocar fortes reacções fisiológicas que interagem com as funções cognitivas e reforçam os preconceitos do bom e o mau, base duma sociedade acrítica onde tudo está já dito e os indivíduos passaram de ser cidadãos a meros consumidores num processo depreciativo que os leva a transformarem-se em simples mercadoria. A isto chamo eu emoções de baixo-ventre porque não desenvolvem o pensamento senão tão-só essa zona das paixões fisiologicamente primárias.

Na Feira da Música de Frankfurt, a mais importante a nível mundial, havia este ano uns 2.400 expositores. As editoras catalãs estavam lá assistidas pelo Instituto Catalã de Industrias Culturais que organizou na cidade três concertos de compositores catalães com intérpretes também da Catalunha. O Instituto Valenciano da Música acompanhava a Editorial Piles e planificava a sua presença na Feira da Música de Shanghai (China). Nesses apoios institucionais há uma evidente componente emocional ao serviço duma estratégia de internacionalização da alta cultura própria como base do desenvolvimento económico interno, porque sem cultura a economia não se passa de especulação, caciquismo ou corrupção, e sem uma alta cultura própria também não alcançaremos uma alta economia própria. Em evidente "desamparo emocional" estava lá um único expositor da indústria musical galega a fazer avançar o Corpus Musicum Gallaeciae.

O que verdadeiramente faz vibrar a gerações de ouvintes duma obra de arte não é precisamente a componente emocional antes bem a sólida construção da obra que permite a cada um de nós tirar à luz as nossas mais profundas emoções. Existem técnicas para induzir determinadas emoções recorrendo à lagoa da memória e aos estereótipos culturais mas isso reduz a criação a fórmulas carentes de originalidade e tendentes à mediocridade, como assim acontece às músicas que depois dum rápido êxito são esquecidas ou nem sequer ultrapassam uma geração.

A originalidade é o factor de imprevisibilidade (grau de acontecimentos inesperados) presentes na lógica da comunicação, o qual desencadeia as emoções profundas. Pelo contrário a mediocridade é a reiteração banal do discurso previsível na procura de suscitar a mesma sensação quando se dá o mesmo estímulo mas, como não reagimos directamente ao estímulo mas sim à consciência que temos dele, o resultado é sempre uma incógnita. Na obra de arte a imprevisibilidade é permanente e sempre descobriremos uma emoção nova em cada aproximação a ela. Na obra medíocre a sensação de tédio vai-nos envolvendo em cada novo contacto e as emoções, se as houver, vão-se degradando até o nível das baixas paixões. Certamente a mediocridade é a característica espiritual desta época, controla os fios do poder e nos exime da responsabilidade de pensar. Um medíocre é aquele que nos oculta informação e se evade de apresentar-nos aos seus amigos porque ao carecer de ideias próprias estaria revelando as suas fontes. O medíocre é um namorado que vai tornando em falso juramento as sucessivas juras de amor eterno. O medíocre parece ser feliz mas não percebe quão estupidamente vai consumindo a sua vida e, se for preciso, apelará à inflexível letra do regulamento ou catecismo para defender o seu ridículo poder. A originalidade é criativa e diversa. A mediocridade é global, alienadora e destrutiva.

A componente emocional não deve pois ser um elemento construtivo, antes bem o resultado duma construção tecnicamente perfeita onde a imprevisível luta intrínseca da obra desencadeie vida emocional própria e diferenciada em cada um dos indivíduos que se relacionam com ela. Se a indústria musical galega não está na Frankfurt Musikmesse, por muito discurso emocional que façamos, é porque não existe e isso não se remedeia com subsídios nem romarias senão criando uma forte demanda interna -incluindo no interno o mercado natural da lusofonia- e promovendo a sua difusão no exterior.

Há uma nova burguesia de esquerdas que está a invocar emocionalmente Sartre para justificar uma ética politicamente correcta e até a sua própria mediocridade, mas a visão mágica do mundo, à qual pertence a emotividade, continua a ser património da imprevisibilidade dos criadores originais porque não há reacção sem estímulo, conceito sem ideia, nem luta sem existência. Na sequência, os compositores da música culta, erudita ou clássica somos uns manipuladores de emoções.

© 2007 by Rudesindo Soutelo


26-IV-2007
O corvo da liberdade
(A Nossa Terra nº 1265; Inforosal; MDL)

(A leva dos escolhidos entra na Arca.)

Eram tempos convulsionados por mudanças radicais. A estrutura vertical da sociedade, intrinsecamente violenta, se derruba. Caos, o estado primigênio e fecundador do mundo, suscita uma nova ordem. A ditadura de João Franco (1907-1908) precipita o fim da monarquia portuguesa. Estamos ás portas da I Guerra Mundial e da Revolução Russa. Foram anos de sucessivas e profundas crises onde os filo-fascistas colheram fôlegos para se opor ao nacionalismo. E nessa venenosa luta ressurge na sociedade portuguesa o saudosismo das glórias pretéritas, o Sebastianismo que Fernando Pessoa descreve na terceira parte de Mensagem, intitulada O Encoberto, como o sonho do Quinto Império.

Nesse contexto nasce no distrito de Vila Real, em São Martinho de Anta, o 12 de Agosto de 1907, Adolfo Correia da Rocha, conhecido pelo seu alter ego Miguel Torga.

(Por quarenta dias recebera das mãos servis de Noé a ração quotidiana.)

O movimento modernista português aparece durante a Primeira Guerra Mundial na qual Portugal está formalmente envolvida. Os preliminares encontram-se no movimento da Renascença Portuguesa com a revista A Águia, dirigida por Teixeira Pascoaes e onde Fernando Pessoa se estreia como crítico literário. O 26 de Março de 1915 aparece o primeiro número da revista Orpheu, início oficial do Modernismo, que teve um grande sucesso já que todos os que a compravam ficavam horrorizados. Os orfistas -Mário de Sá-Carneiro, Almada Negreiros, Luís de Montalvor, Ronald de Carvalho, os heterónimos de Pessoa, etc.- estavam influenciados pelos manifestos de vanguarda europeus, do futurismo de Marinetti, do existencialismo de Heidegger, e foram chamados de loucos e irreverentes por apresentar poesia carente de metro ou sublimar a modernidade. O Manifesto Dadá de Tristão Zara ainda tardará três anos em ser redigido.

Júlio Dantas, máximo expoente das letras portuguesas na altura, reage contra a inovação dos orfistas e diz que esses autores são pessoas sem juízo, paranóicos. Almada publica o Manifesto Anti-Dantas e por extenso contra a geração tradicionalista duma sociedade burguesa num país limitado. E finaliza «O Dantas é a meta da decadência mental! ... Morra o Dantas! Morra! Pim!», e assina: POETA D'ORPHEU, FUTURISTA E TUDO.

(Superara o instinto da própria conservação e de peito aberto fugiu em protesto activo contra o arbítrio que dividia os seres em eleitos e condenados.)

Os orfistas semearam as artes e as letras portuguesas dum tom europeísta e audaz decidido a combater o academismo bem pensante da burguesia. O Modernismo incita à plenitude individual construindo a linguagem a partir do vazio, do não-eu. No rasto do Orpheu surgiram sucessivas publicações literárias a alimentar a modernidade. Exílio 1916, Centauro 1916, Ícaro 1917, Portugal Futurista 1917, Athena 1924-1925 e Presença 1927-1940, marco do segundo período modernista português onde Miguel Torga se integra desde a sua fundação. Mas em 1930, ao considerar que há imposição de limites à liberdade criativa, abandona o presencismo junto com Branquinho da Fonseca e Edmundo Betancourt.

(A voz de Deus ribombou pelo céu imenso, numa severidade tonitruante. Numa minúscula ilha de solidez, no meio dum abismo movediço, impávido, negro, sereno, permanecia o corvo.)

«Nasci subversivo. / A começar por mim - meu principal motivo / de insatisfação.» escreve Miguel Torga no seu livro Orfeu Rebelde. O conto é talvez o cimo da sua expressão literária e os dramas da vida rural na relação do homem com a terra e o mundo, a morte e a solidão, são as constantes que revelam a brevidade e universalidade humana.

Bichos apareceu em 1940, numa irmandade de animais com sentir humano ou humanos revestidos de animal. Uma Arca de Noé onde a obra se desvincula do seu criador e adquire vida própria. Vicente, a apoteose final de Bichos, subverte a perspectiva teológica do discurso bíblico e se alça como um símbolo de liberdade ao insubordinar-se à verticalidade do omnipotente poder divino -intrinsecamente violento e falocéntrico- com a serena dialéctica horizontal de tratar a Deus num plano de igualdade.

(A morte temia a morte. Ou o Senhor preservava a grandeza do instante genesíaco, ou o seu aniquilamento invalidava essa hora suprema.)

No ano que surgiu Bichos o autor foi conduzido a prisão pelas críticas à ditadura fascista do criminal Franco contidas na sua obra O Quarto Dia da Criação do Mundo. O livro foi confiscado. Fernando Lopes-Graça compõe em 1942 a História trágico-marítima para barítono, coro feminino e orquestra, sobre um poema de Miguel Torga. Caos, o estado primigênio e fecundador do mundo, suscitara uma nova ordem.

(Nada podia contra aquela vontade inabalável de ser livre. Para salvar a sua própria obra, Deus fecha, melancólicamente, as comportas do céu.)

As seis secções deste artigo (em parêntese) são as que conformam a obra que eu compus para os actos do centenário por encomenda de Cultura Norte do Ministério da Cultura de Portugal. Está escrita para Quinteto de sopros e a estreia será o 5 de Maio de 2007 no Teatro Municipal de Vila Real, repetindo-se logo em Porto, Coimbra, Caldas do Gerês, Chaves, Guimarães, Bragança, Compostela e Zamora. O corvo da liberdade, inspirada no último conto de Bichos, é uma homenagem a Miguel Torga, a vontade que desafiou Deus. E com os seus versos eu apregoo: «Junquem de flores o chão do velho mundo: / Vem o futuro aí!».

© 2007 by Rudesindo Soutelo


12-IV-2007
A arte é um antidestino
(A Nossa Terra nº 1263; Inforosal)

Quando uma palavra, uma imagem, um som, cai na lagoa da nossa memória uma onda concêntrica se propaga da superfície até as profundidades, remexendo conceitos, ideias, estímulos que ficavam inertes e, ao ser assim activados, interagem entre si dum modo inconsciente gerando associações, reacções, analogias, confrontos que tanto podem iluminar a fantasia como construir a realidade.

Ouvir um sopra-gaitas ou um vulgar cantor de bossa novas sacude as minhas vísceras dum jeito desagradável porque, ainda que empreguem textos poéticos ou mesmo de compromisso social, as suas musiquetas estão construídas com a rança linguagem da comunicação vertical, hierárquica, falocêntrica, simplória, e que violenta a dignidade humana por se sustentarem na alienação e nos preconceitos.

O discurso da música tonal dos séculos XVIII e XIX -seja no registo culto, popular ou tradicional- foi um grande contributo da cultura ocidental ao mundo das ideias, mas insistir hoje em criar música com fórmulas tão manuseadas é profundamente reaccionário e só exprime a caricatura insubstancial duma sociedade que avança para trás. Beethoven, Mozart ou Wagner para nos revelar os conceitos, sentimentos, ideias e estados de consciência da sociedade em que se desenvolviam tiveram de revolucionar a linguagem musical para transcender o seu tempo e fazer reflectir o pensamento individual. Aquela distribuição vertical dos poderes com subordinação sucessiva de uns a outros espelha-se na gramática tonal do seu discurso musical. Hoje temos uma outra realidade a fervilhar no remorso ou inquietação da consciência social e toda estrutura verticalmente hierárquica é intrinsecamente violenta.

Logo que se publicara o artigo de Outra música é possível no Dia Internacional da Mulher chegaram-me algumas críticas, curiosamente de homens, acusando-me de ir contra a liberdade de expressão dos autores e, os mais inteligentes, argumentam que às vezes a violência é necessária para fazer passar a mensagem revolucionária. Os ditadores políticos, económicos, culturais ou mediáticos conhecem muito bem as grandes possibilidades persuasivas da violência. Mas é preocupante que ao remexer na lagoa da memória de muita gente ainda se associe liberdade de expressão com tolerância da violência, o qual demonstra que a cultura falocêntrica, vertical, de poder e submissão, como a música tonal, ainda paira no subconsciente colectivo que as multinacionais do ócio alienador alimentam interessadamente para perverter a capacidade de análise dos indivíduos e preservar o seu negócio. O autor que precisa desse recurso primário, instintivo e animal para se comunicar é um irresponsável carente não só de técnicas de expressão senão também de ética, e a sua estética não supera o nível do baixo ventre, que é o que a indústria da violência promove.

O apelo à liberdade de expressão é um argumento falaz quando se invoca para manter a violência da comunicação vertical. A liberdade, como a violência, é tão só uma, e não se pode parcelar em quadrinhos duma banda desenhada. Ou existe ou não existe mas não se pode conceber uma liberdade que constrange outra liberdade própria ou alheia. A minha liberdade só pode começar ali onde começa a liberdade dos demais porque do contrário não falamos de liberdade senão de violência.

Dizia André Malraux que "a arte é uma revolta contra o destino" e também que "são precisos 60 anos e não 9 meses para fazer uma pessoa". A emancipação da música libertando-se da tutela do sistema tonal produziu-se gradualmente ao longo de dois séculos, desde a Fantasia Cromática BWV 903 de Johann Sebastian Bach, passando pelo Tristão e Isolda de Richard Wagner dominado pelo enigmático acorde inicial (fa-si-re#'-sol#'), até culminar em 1908 no último andamento do Quarteto nº 2 opus 10 de Arnold Schönberg ou na sua Suite opus 25 para piano, primeira obra composta com procedimentos seriais e na qual as quatro últimas notas da série original (H=si, C=do, A=la, B=si bemol) conformam o nome de Bach retrogradado. Um século de música horizontal sem tónica nem dominante, sem poder nem submissão, num plano não hierárquico, entre iguais, porque o poder não existe como tal. Michel Foucault diz que "o poder e o saber se articulam no discurso". Mas quando o texto e a música sobrepõem discursos contrapostos, a violência vertical actua como antimatéria da mensagem horizontal.

A revolução cultural e social que proclama o feminismo, de substituição das relações verticais pelas horizontais, não se pode levar adiante com a reaccionária linguagem da música tonal, falocêntrica, e é preciso ir mudando para uma linguagem horizontal da música que nas próximas gerações conforme a tradição. E a música popular já tem, na música culta dos últimos cem anos, suficientes fórmulas de linguagem horizontal para aplicar, mas isso vai contrariar o negócio da violência, do poder e do controle, e as multinacionais do ócio alienante não o vão consentir.

Uma onda concêntrica se propaga da superfície até as profundidades da lagoa da memória e gerando analogias é que eu construo a realidade e lhe digo ao reaccionário cantor, com as palavras dum génio da comunicação horizontal, Groucho Marx, "Nunca esqueço um rosto mas com você vou abrir uma excepção". André Malraux também nos esclarece: "O homem é aquilo que ele próprio faz" e "A arte é um antidestino".

© 2007 by Rudesindo Soutelo


8-III-2007
Outra música é possível
(A Nossa Terra nº 1259; Inforosal)

Desculpem que no Dia Internacional da Mulher não lhes fale da música culta galega, porque há outras músicas -perversas, brutais, destrutivas, que ferem e matam- músicas anti-culturais que precisam da nossa atenção urgente para salvar a dignidade humana.

Temos demasiados buracos negros nesta sociedade e não podemos olhar para outro lado sem sentir repugnância da espécie animal que nos engloba. O silêncio nos converteria em vulgares inflagaitas a animar uma festa amarga, cruel e indigna.

A violência, em qualquer dos âmbitos onde se manifesta -familiar, laboral, festivo, político, militar, religioso, ou de estado-, é sempre a mesma e tão só variam os graus de intensidade, impunidade ou tolerância social. Só existe uma forma de violência: a que degrada a dignidade do ser humano, é dizer, que rompe alguma forma de integridade da vítima, seja física, psíquica, sexual ou moral. Toda violência é igual de intolerável e nada a pode justificar.

As multinacionais do ócio globalizante, essas que nos acossam por toda a parte para forçar-nos a consumir a sua bazófia pseudo-cultural, sabem muito bem que a indústria da violência é o negócio mais rentável porque subverte a capacidade crítica dos indivíduos e os torna mais submissos. Uma cantadeira usamericana muito ouvida pelos adolescentes de tudo o mundo, Britney Spears, numa das suas canções deixa cair uma frase aparentemente inocente; mas instalada no subconsciente dos futuros adultos é uma bomba de relojoaria. "Hit me, baby, one more time" (Golpeia-me outra vez, baby) que repetido uma e outra vez chega a interiorizar-se e legitimar uma violência execrável da qual as mulheres são as vítimas principais.

Nos textos da música tradicional há exemplos de vileza moral contra as mulheres, e muitas das canções populares em espanhol que configura o repertório habitual das orquestras de baile que amenizam as inúmeras festas que se celebram por toda a Galiza durante o ano, falam de sexismo, violência e maltrato sem que ninguém faça nada por evitar essa sibilina forma de vexação, vergonha e tormento que se dirige festivamente contra as mulheres. Desde o tango de Carlos Gardel, "Tomo y obligo", que diz textualmente "los celos me estaban cegando / no sé como pude contenerme / y no la maté", passando pela famosa copla "La bien pagá", até as atrocidades que dizia o roqueiro Loquilho na canção "La mataré" onde expressa barbaridades desta índole: "quiero verla entre los muertos / que no la encuentre jamás / porque sé que la voy a matar".

Uma justificação perversa da violência é aquela que pretende convencer-nos da sua necessidade para impor disciplina, ocultando interessadamente que a disciplina só se adquire com estima e respeito. A disciplina depura o pensamento e valoriza a liberdade pessoal transformando-nos em seres sociais, e também nos capacita para superar os condicionamentos internos ou externos que encontramos na vida quotidiana. As normas de convivência, a democracia e mesmo a autoridade fundamenta-se na disciplina mas quando esta é imposta com violência então se converte em vulgar repressão. A disciplina nos faz livres mas a violência escraviza.

As relações sociais baseadas na violência são todas de estrutura vertical. Acima está o poder, a força, a autoridade, a lei, elementos tradicionalmente considerados masculinos. Abaixo está a submissão, obediência, e tudo o que a tradição judeu-cristiana considera próprio da mulher, como descanso do guerreiro, beleza, encanto, sensibilidade; e chega inclusive à infâmia de a qualificar de sexo débil e confiná-la à função doméstica e reprodutora que Engels definiu como "proletária do homem". O discurso de comunicação vertical sustenta-se no já-dito, na memória acrítica, no acatamento do "status quo", na alieanação ou anulação da personalidade individual, em fim, nos preconceitos falocêntricos que galantemente nos atraem para, uma volta atrapados nesse campo de gravitação, descobrir com horror que é um buraco negro que se alimenta da nossa destruição. E fugir dele não sempre é factível.

Temos de depurar ainda muito as normas de convivência social para transformar essa comunicação vertical num discurso horizontal formulado e dito por nós mesmos num plano não hierárquico, entre iguais, porque o poder não existe como objecto natural, o que sim há são relações de poder como práticas sociais, que dizia Michel Foucault. Mas isto é a essência do feminismo como revolução cultural e ideológica que pretende libertar por igual homens e mulheres e dar uma nova forma as relações individuais e sociais.

Nenhum avanço cultural ou social se produz em compartimentos estancos e na música culta ocidental dos últimos cem anos, como em todas as artes, opera-se esse mesmo processo de transformação da linguagem vertical -falocêntrica, tonal- em linguagem horizontal -sem hierarquias, atonal- mas os preconceitos culturais seguem a aliciar uma perversa indústria da violência globalizante que se retro-alimenta na recriação involutiva da tradição e num conservantismo infértil da música popular.

Numa estrutura horizontal do discurso, da linguagem, da sociedade, existem tensões e distensões mas nunca violências. E isso é precisamente o que muitos vêem com receio porque para eles significa a perda do controle.

Devemos então proclamar que uma outra música é possível.

© 2007 by Rudesindo Soutelo


26-X-2006
Corpus Musicum Gallaeciae
(A Nossa Terra nº 1241)

Comunicação apresentada nos Vº Colóquios da Lusofonia de Bragança o 3 de Outubro de 2006, revista e publicada no Boletim da AGLP número 1 (2008) com o título Por um Corpus Musicum em liberdade.




24-VII-2006
Carta aberta ao Conselheiro de Inovação e Indústria
(PGL - Inforosal)

Tui, 24 de Julho de 2006

Excelentíssimo Senhor Conselheiro de Inovação e Indústria D. Fernando X. Blanco Álvarez

Como compositor e editor do Corpus Musicum Gallaeciae, a notícia da desaparição do "Festival Internacional de Música de Galicia" foi-me muito grata, já que era a maior afronta, injúria ou ofensa que com dinheiro público se infringiu os compositores galegos. Assim o denunciei publicamente durante anos sem que os responsáveis políticos mudassem a sua prepotente atitude galeguicida.

Com o novo Governo e o traslado do "Xacobeo" a Conselharia de Inovação e Indústria fazia recuperar esperanças já que os caminhos de Compostela foram sempre a indústria mais inovadora e dinamizadora da Galiza, por onde entrou a cultura europeia na Galiza, mas sobretudo por ser a via natural para inserir a nossa cultura na Europa e no Mundo. Uma alta cultura forjada no crisol cosmopolita do caminho iniciático de finisterras e que hoje, mais do que nunca, tem uma força criativa, ou seja, inovadora, que com um pouco de sensibilidade política se poderia transformar na maior indústria galega. Sem cultura própria nunca teremos uma economia própria, e sem alta cultura também não há uma alta economia.

Mas examinando o programa dos 43 concertos do novo festival "Via Stellae" debo manifestar-lhe a minha mais profunda decepção pela ausência absoluta da realidade criativa galega, e se o período histórico escolhido é musicalmente irrelevante na Galiza pois deveriam ter prescindido dessa atadura e fazê-lo mais acorde com a nossa história musical. Ainda assim os musicógrafos, que tantas páginas lhe enchem do voluminoso livro do festival, poderiam ter-lhe sacado dos arquivos algo mais que um Anónimo da Catedral de Tui e um Concerto Grosso do italiano que habitara na Galiza Buono Chiodi. E se figuram autores tão afastados do barroco como Joaquin Nin ou Leo Brouwer porquê razão não se incluiu também algum compositor galego? Só porque mudou o governo vou excluir a escusa que o director artístico do festival me dava nos tempos do inefável Carminha Burrana: "Não temos orçamento para fazer produções próprias e programamos o que nos proporcionam as agências". Programar os compositores galegos não é questão de dinheiro senão de vontade.

Está bem que as instituições públicas fomentem a música culta na Galiza mas é absurdo e contra natura que isso o façam sem a nossa música, é dizer, que o façam contra nós. E o que ainda é pior, o público que assiste a esses concertos pode deduzir que os compositores galegos não são dignos de estar num festival institucional, nem com os de antes nem com os de agora, e isso o leve a concluir que os nossos compositores devem ser uns vulgares inflagaitas. O passado só se valoriza desde a perspectiva do presente e inserido no entorno do observador, porque para apreciar o alheio é preciso ter uma afiançada realidade própria. Sem isso o festival devém em preciosos gorjeos líricos para melífluos e não aporta nada útil a não ser a desideologização e uma maior perda de auto-estima da sociedade galega, assim como a destruição da nossa música culta.

O esquecimento que padecemos na própria terra os compositores impede consolidar uma indústria musical exportadora. Matéria prima e de qualidade temos de abondo. Até hoje a presença em feiras internacionais como a de Frankfurt para abrir mercados e caminhos novos aos nossos criadores de música culta foi sempre por iniciativa própria carente de todo apoio institucional e ainda com a política industrial em contra.

Assim pois, com toda humildade, peço-lhe que reconsidere o festival "Via Stellae" para o pôr ao serviço do desenvolvimento da nossa indústria, da nossa cultura inovadora, da nossa música culta.

Com os melhores cumprimentos, subscrevo-me com a máxima consideração.

Rudesindo Soutelo